Propagação por estaca de folha de Begonia aconitifolia e suas híbridas
Como sabemos pela literatura, infelizmente as begônias bambusiformes ("cana" - B. maculata, B. dichroa, B. coccinea, B. undulata, etc) seriam incapazes de produzir mudas a partir de folhas. A única possibilidade de propagação vegetativa (assexuada) nestas plantas é via estacas de galho com 3 a 4 nós (o mais fácil e usual), corte de nó com gema dormente (corte "Heel"- um processo mais difícil para nós amadores) ou pedaço de haste com apenas um nó (corte "Mallet" - menos complicado que o anterior, mas que também não é tão garantido quando estaca de galho).
O pecíolo e a lâmina foliar destas espécies aparentemente não teriam o meristema necessário para gerar uma nova planta. Nas begônias "cana" as folhas podem até enraizar, durar alguns meses, mas nunca geram uma planta nova.
Eu já tentei várias vezes para algumas variedades. Geralmente a folha nem enraiza e apodrece depois de um tempo. Faço isso justamente para confirmar a impossibilidade, por mais estranho que possa parecer, mas isso é ciência - é preciso confirmar o sucesso de uma teora, mas também a nulidade de resultado de uma dada hipótese para descartá-la sem achismos, mas sim a partir de fatos concretos.
Begonia maculata é a que dá mais (quase) certo, pois as folhas enraizam, mas não geram uma planta clone. Tenho nesse momento duas folhas de B. maculata fartamente enraizadas, uma com 4 meses e outra com 3, que estão lentamente morrendo, a lâmina foliar secando pouco a pouco, e nada de surgir muda.
Agora chegamos na parte do relato de um experimento inédito, ou não documentado.
Para meu espanto, uma das muitas folhas de B. 'IAC' (B. aconitifolia x B. maculata) que eu já tentei propagar não só enraizou como... APARECEU UMA MUDINHA! E logo já eram 3 mudinhas!
![]() |
| Desenvolvimento de Begonia 'IAC' clonada a partir de estaca de folha. |
Eu já pesquisei muito, Google e Instagram, tentando achar algum outro relato semelhante, de propagação a partir de folha de alguma híbrida de B. aconitifolia com alguma outra espécie bambusiforme (tem que ser bambusiforme, pois uma eventual híbrida com alguma espécie subarbustiva, rizomatosa ou tuberosa muito propavelmente herdaria a possibilidade de clonagem por folha do outro progenitor, como acontece com a B. 'Corallina de Lucerna', que herdou esta característica da B. teuscheri). Não achei nada! Pelo contrário, sempre o que acho é que não seria viável.
Naturalmente não estou alegando que sou o primeiro a conseguir este resultado! Certamente muitos já o conseguiram, até por não saberem que isto não seria o esperado ou recomendado. O que acho curioso é não conseguir encontrar nenhum outro caso similar documentado e publicado.
Desde então, o pequeno clone cresceu normalmente, e diferente de clone por estaca de galho, mesmo ainda pequeno desenvolveu um caudex (estaca de galho só vai ter caudex nas hastes seguintes, que brotarem a partir da base da estaca, por baixo do substrato), como acontece com plantas nascidas de semente de espécies que possuem caudex.
![]() |
| Caudex da Begonia 'IAC' gerada a partir de estaca de folha com pecíolo. |
A planta está cada vez maior, com um belo porte, cheia de folhas, com caudex cada vez maior, de onde saem várias novas hastes.
![]() |
| Begonia 'IAC' gerada a partir de estaca de folha com pecíolo. |
Por um bom tempo eu achei que talvez tivesse me confundido, pois afinal, segundo as informações disponíveis, isso não deveria acontecer. Naturalmente venho tentando repetir o experimento, mas até agora só tenho obtido raízes, e nenhum clone. Já tentei folhas com pecíolo completo e cortado. No momento há uma folha com pecíolo completo que está fartamente enraizada, o calo na base do pecíolo está bem pronunciado, e por isso tenho boas expectativas com esta folha. Estão em teste também dois cortes de lâmina foliar em cone.
E aí... uma minha seguidora no Instagram (Barbara Dias, @casinha_verdecoracao) me enviou recentemente uma foto de uma folha da sua Begonia IAC que gerou um clone em esfagno. Viva! Era a confirmação de que não me enganei, nem foi um acidente aleatório. Esta híbrida é capaz de se reproduzir por estaca de folha, mesmo que não seja um método com taxa de sucesso tão alto como para begônias rizomatosas, tuberosas ou subarbustivas!
![]() |
| Outro clone de Begonia 'IAC' a partir de estaca de folha com pecíolo. |
Em seguida ao sucesso inesperado de propagação anterior, parti para um novo experimento - tentar propagar uma folha de B. aconitifolia, uma vez que ela é um dos progenitores de Begonia 'IAC', begônia esta que possui 50% dos gens daquela, e como eu já havia tentando muitas vezes propagar folhas de B. maculata, a outra progenitora, sem sucesso, a B. 'IAC' não poderia portanto ter herdado esta característica de B. maculata.
![]() |
| Desenvolvimento de Begonia aconitifolia clonada a partir de estaca de folha. |
E para minha surpresa (e felicidade!), logo na primeira folha obtive um clone!
![]() |
| Begonia aconitifolia gerada a partir de estaca de folha com pecíolo. |
Isso me fez pensar - estas duas begônias (B. 'IAC' e B. aconitifolia) tem em comum, morfologicamente, algo que se destaca de imediato - o caudex - algo que não vemos na maioria das begônias neotropicais consideradas bambusiformes, exceto B. aconitifolia, B. platanifolia e B. pachypoda, três espécies brasileiras visualmente parecidas, que ocorrem originalmente em locais próximos, entre o norte do estado do Rio de Janeiro, sul do Espírito Santo e sudeste de Minas Gerais.
![]() |
| Begonia aconitifolia matriz, de onde saiu a folha propagada. |
![]() |
| Caudex da Begonia aconitifolia. |
Onde mais encontramos Begonia com caudex? Na África, o continente da provável origem do gênero. Por exemplo, pode-se citar B. dregei (Cidade do Cabo - África do Sul). Esta espécie é considerada semi-tuberosa, mas na verdade ela forma um caudex em sua base, não um verdadeiro tubérculo.
![]() |
| Begonia dregei 'Glasgow' |
Se você olhar para as plantas desta espécie, perceberá similaridades morfológicas dela com as três espécies brasileiras acima, particularmente quanto ao formato e ornamentação das folhas. Parecem miniaturas das nossas.
Esta espécie está ameaçada de extinção por causa da pressão humana e a destruição de seus habitats, principalmente por se tratar de uma espécie micro endêmica. Além disso, ela existe em pequenos bolsões na Cidade do Cabo, separados há provavelmente muito tempo, pois há muitas variação de forma, tamanho e ornamentação das folhas, que no passado até levou os botânicos a classificar estas variações como espécies novas, mas agora já se sabe que são todas B. degrei.
![]() |
| Begonia dregei 'Partita' |
B. dregei, segundo os estudos de mapeamento de genoma mais recentes para o gênero, é (até o momento) a mais próxima das begônias das Américas. Veja nos gráficos de verossimilhança filogenética como a B. dregei compartilharia um elo evolutivo direto com as begônias neotropicais. Este elo teria dado origem na África à B. degrei, e nas Américas às begônias colonizadoras neotropicais pioneiras. Uma dessas colonizadoras pioneiras teria dado origem às begônias classificadas como bambusiformes ("cana"), representadas nos gráficos pela B. aconitifolia (a provável mais antiga de todas as já estudadas), B. lubbersi, B. maculata e B. undulata.
Infelizmente este tipo de estudo está muito atrasado no Brasil, em comparação ao que acontece no exterior, e poucas espécies brasileiras já tiveram o genoma mapeado, e sempre por pesquisadores fora do Brasil.
Então, parti para pesquisar se a B. dregei seria capaz de gerar clone por folha com pecíolo. Não foi fácil, quase todas as fontes encontradas relatam apenas estaca de galho e sementes, igual ao que sabemos para todas as bambusiformes brasileiras. Até que finalmente achei UMA página, do Jardim Botânico Nacional de Kirstenbosch (Cidade do Cabo, África do Sul), que informa ser possível propagar B. dregei a partir de folha, mas que é um método mais trabalhoso e que tende a levar mais tempo para o estabelecimento da planta em comparação com estaca de haste, e que por isso este último é o método mais recomendado.
Como apontado antes, B. aconitifolia é provavelmente a mais antiga de todas as espécies bambusiformes já estudadas. Agora preste atenção no segundo gráfico de verossimilhança filogenética (acima), que leva em consideração apenas o material genético do núcleo das células - quem está "coladinha" com B. degrei? Exato! B. aconitifolia.
BINGO! Para mim parecia uma provável explicação da razão de B. aconitifolia e suas híbridas serem capazes de gerar clones a partir de estaca de folha. Deste parágrafo para a frente não lidamos mais com fatos concretos e dados experimentais revisados, mas com minhas elocubrações sobre o assunto.
Uma vez que a maioria das begônias consideradas bambusiformes não possuem caudex, tendo a crer que além da B. aconitifolia, B. platanifolia e B. pachypoda sejam também mais antigas e próximas de B. dregei do que as demais bambusiformes. Talvez ao longo da evolução algum ancestral comum às demais bambusiformes brasileiras teria perdido o caudex, que é uma estrutura que exige dispêndio energético e metabólico para ser gerado, aloca bastante água, açúcares e nutrientes, e existe para garantir a sobrevivência da planta em momentos de clima mais seco e adverso. A B. degrei faz parte do grupo identificado no estudo como SDAAB - begônias adaptadas a clima sazonalmente seco (gráfico 1).
![]() |
| Begonia pachypoda |
As begônias bambusiformes são de floresta pluvial, onde esse tipo de evento (seca) não é normal, e talvez ao longo do tempo, através da seleção natural, as plantas mutantes que não empregavam recursos na produção de um caudex, e que com isso podiam direcionar estes recursos para outros fins, poderiam ter conseguido uma vantagem reprodutiva/evolutiva sobre as que possuiam caudex. Podemos pensar como existem mais espécies bambusiformes sem caudex do que com caudex. Lembre-se ainda que há espécies bambusiformes epífitas, algo que me parece que seria mais difícil para plantas com caudex.
![]() |
| Caudex de Begonia pachypoda. |
Por alguma outra razão não necessariamente relacionada com a perda do caudex, alguma ancestral das demais bambusiformes contemporâneas teria perdido também a capacidade de gerar clones por estaca de folha, o que não é registrado para aparentemente todas as espécies bambusiformes contemporâneas sem caudex.
Outra coisa que já pensei é que talvez as begônias brasileiras da seção Latistigma estejam indevidamente classificadas como bambusiformes. Por sinal, o site do Jardim Botânico Real de Kew (Inglaterra) considera B. aconitifolia e B. platanifolia arbustivas. Talvez elas devessem ser também consideradas como semi-tuberosas, igual à B. degrei, ou melhor ainda, quem sabe criar um novo tipo de hábito para Begonia - caudiciformes.
![]() |
| Begonia platanifolia |
É uma pena que não tenhamos ainda o genoma de B. platanifolia e B. pachypoda mapeados! Isso nos traria mais perto desta hipótese, ou a descartariam. Em ambos os casos, seria muito melhor do que ficar teorizando no vazio.
Seria ótimo também ter acesso a B. platanifolia e B. pachypoda, para experimentar propagar suas folhas e expandir este experimento. Espero um dia conseguir. É triste que embora seja uma planta brasileira, é mais fácil encontrá-las em cultivo no exterior. Como também assim que tiver acesso a outras híbridas de B. aconitifolia, irei repetir a experiência de propagação por folhas.
fontes:
- Begonia Phylogeny Group. "Resolving phylogenetic and taxonomic conflict in begonia", Edinburgh Journal of Botany, v. 79, 2022
- KOLLMANN, Ludovic Jean Charles & PEIXOTO, Ariane Luna. "Begonia Pachypoda L. Kollmann & Peixoto (Begoniaceae), a New Species from Brazil Currently known in Cultivation as Begonia Leathermaniae O'Reilly & Kareg". Candollea - Journal international de botanique systématique n.68(1), julho 2013
- LI, Lingfei et alli. "Genomes shed light on the evolution of Begonia, a mega-diverse genus", New Phytologist v.234, abril 2022
- Ma collection de Begonias botaniques. "Begonia platanifolia", 2016
- TAMBLYN, Linda. "Succulent Type Begonias", American Begonia Society, sem data
- XABA, Phakamani. "Begonia dregei", Kirstenbosch National Botanical Garden, 2010
- sem autor. "Begonia dregei", American Begonia Society, sem data
















Comentários
Postar um comentário